Sem planos.
Por que também precisamos de momentos menos planejados.
Apesar das nossas tentativas de planejamento e organização, muitas vezes nos vemos perdidos. Não é incomum constatarmos que quanto mais tentamos planejar, mais parece que falhamos.
Na nossa busca por evitar procrastinar, evitar perder tempo, acabamos ignorando que há benefícios em deixar as ideias se misturarem um pouco, sem qualquer ordem deliberada. Talvez, dessa forma a gente abra espaço para o quase caos nos contar algo que a ordem deixa escapar. Organizar demais pode fazer a gente perder de vista aquilo que surge.
É mais ou menos o que acontece nas sessões de terapia. Vez ou outra, especialmente no inicio do processo terapêutico, alguém chega achando que deveria ter planejado o que ia dizer e alguns chegam até a anotar, de forma ordenada, o que gostariam de falar.
No entanto, quando falam, percebem que organizar nem sempre ajuda e que mesmo tentando, as coisas costumam tomar outro rumo. Não é incomum escutar alguém dizer: “eu tento planejar o que vou falar, mas quando vejo já tô puxando outras coisas.” ou “eu cheguei falando que não sabia o que falar e acabei falando tudo isso.”
Assim como na vida, como quando estamos no mundo vivendo, a sessão segue um curso próprio e ignora nosso planejamento — ainda bem. Com o tempo, o medo de esquecer dá lugar à confiança de que encontrarão o que dizer, ou que aquilo que quiser ser dito encontrará seu caminho e chegará à sessão.
Em uma passagem do livro Fonte de Fogo, a psicoterapeuta Anne Fraisse toca nesse ponto e retoma o mito de Kairós, o deus do tempo oportuno, para se referir aos momentos inesperados nos quais a nossa verdade encontra o seu caminho. Quando o sentido de algo se apresenta de forma inesperada, sem a nossa busca deliberada, sem o nosso planejamento.
Anne Fraise, escreve:
"Ele se chama Kairós. (...) nos permite encontrar o lugar certo no momento certo. Na experiência chegamos à medida de nossa verdade, e o sentido pode se revelar. De fato, surge inopinado.” - Anne Fraisse [1]
Atenção demais à nossa ordem, aos nossos planejamentos, retira-nos do mundo das relações, ou seja, do tempo presente. E aí perdemos mais. Perdemos as possibilidades, as novas compreensões de si e do mundo, as perspectivas. Perdemos liberdade.
Tornamo-nos rígidos. E diferentemente da suposta segurança encontrada em um planejamento, caminhamos ao lado da insegurança.
“a insegurança, todo psicólogo sabe disso, é a mãe da rigidez.” - Monique Augras [2]
Sustentar a vida e existir no mundo exige confiar na dinâmica entre estrutura e desordem. Sabemos que isso pode gerar angústia, mas, como ensina o filósofo Kierkegaard: “a angústia é a realidade da liberdade enquanto possibilidade para a possibilidade“ [3]. Essa frase retira da angústia o status apenas de fardo e a coloca como um sinal da nossa liberdade.
Na presença dela e apesar dela, podemos reconhecer que, em meio à incerteza, haverá possibilidades. Aprendemos a confiar na vida, mesmo quando nossos tão 'seguros' planos não se cumprem.
Nos abrimos, então, às inesperadas possibilidades e às experiências. E confiamos que, mesmo sem um roteiro, haverá caminhos.
Referências
[1] Fraisse, A. Fonte de Fogo. Ensinamento e iniciação: vida, morte e renascimento num percurso analítico. Rio de Janeiro: Mauad X, 1998.
[2] Augras, M. O ser da compreensão. Fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. Petrópolis: Vozes, 2013.
[3] Kierkegaard, S. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes, 2010.



